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Viva a Morte!

“Eu pacificamente vou matar você.”

                                                                           Jair Bolsonaro

Leitor, eleitor.

Nós, brasileiros, estamos vivendo um momento muito grave. Milhões de trabalhadores estão desempregados e outros tantos milhões correm o risco de não poder pôr comida no prato. A miséria campeia, solta, no campo e nas cidades e, com ela, o aumento das doenças, o retorno de males que haviam sido extintos, os dramas familiares, a enorme intensificação da luta pela sobrevivência. Tempos sinistros, que geram muita instabilidade, ansiedade e insegurança. E a população, mais especificamente os pobres, não tem para onde correr, pois o Estado está surdo e focado só no corte de direitos, de programas sociais e do orçamento.

O contexto suscita medo, e muita raiva – “contra tudo isso que está aí”, diz a campanha do candidato Bolsonaro (Como se ele não tivesse nada com isso e nem fizesse parte do jogo!). O medo fica com cada um, a raiva é direcionada para o outro, um bode expiatório, que vai ser responsabilizado por nossa desgraça. Como nos sentimos impotentes para melhorar nossa situação, acusamos o outro por nossos males, tentar nos livrarmos deles. E, ao mesmo tempo, alimentamos as saudades do passado, de um outro tempo, quando éramos felizes e não sabíamos. Assim, a campanha de Haddad promete nos fazer voltar a sermos felizes de novo; e a de Bolsonaro apela para as imagens conservadoras de um tempo em que Deus, a família e a pátria nos protegiam de tudo. Com uma diferença, porém, que é fundamental: enquanto a primeira busca se ancorar numa experiência real, vivida, a segunda se apoia numa felicidade imaginária, idealizada.

Juntos, o medo e a raiva que sentimos nos tornam ressentidos com a impossibilidade de tomarmos nas mãos nossos destinos. Terreno fértil para passarmos a odiar todos aqueles que se tornam nossos inimigos porque os vemos como obstáculos à nossa felicidade. E quanto mais a crise se agrava, maior a ameaça ao nosso status e à nossa sobrevivência, maiores o ressentimento e o ódio contra o “inimigo”, seja ele externo ou interno. Correndo o risco de perder nossa distinção, de decairmos, passamos a desejar “acabar com ele”, fazê-lo desaparecer, “sumir do mapa”. Em resumo: passamos a desejar que ele morra! Só assim sobreviveremos.

Nada mais importa. É preciso excluir os que, de uma ou outra maneira, nos atrapalham, varrê-los de nossas vidas, eliminá-los do nosso meio, da sociedade. O inimigo é o culpado. Então, em vez de desejar que morra, começamos a desejar matá-lo, fazermos nós mesmos a “limpeza”.

Isso tem início com o lema do linchamento – “Bandido bom é bandido morto.” –, continua com “Direitos humanos para humanos direitos” até que a dinâmica da intolerância invade o campo social inteiro. E é claro que quem define quem é, ou não, bandido, quem é, ou não humano direito, somos sempre nós, porque nós sabemos, através de nossos conceitos e preconceitos, o que é bom para todo mundo, o que é certo, o que é “direito”. O “resto”, eu não aceito, não posso aceitar. Não quero nem saber…

No Brasil, como se sabe, “ser pobre é ser culpado”. Mas isso não basta. Além de ser culpado por ser pobre, precisa ser culpado por ser negro, índio, mulher, homossexual, minoria étnica e muitos etceteras. Claro que, somados, todos estes constituem a imensa maioria do povo brasileiro. Mas, pouco importa. Quem nomeia é o “homem bom” branco, da classe média para cima, tomado como referência. Este deve ter sua existência assegurada – a dos outros é, no máximo, tolerada. Mas não em tempos de crise.

Agora chegamos no ponto em que a lógica da exclusão se transformou, aqui, em lógica do extermínio. A rigor, a extinção nunca deixou de marcar presença no Brasil, desde o descobrimento, com o genocídio continuado dos povos indígenas e até hoje ignorado pelos brasileiros. Mas agora parece que, excetuando o 1% mais rico, todo mundo é índio, portanto matável. Começou com os jovens negros nas favelas, depois passou-se a mirar os “petralhas” e “mortadelas”, em seguida a sanha incluiu também as mulheres, os homossexuais, os trabalhadores sem terra e sem teto, os refugiados, os artistas, os cientistas, antes de chegar aos sindicalistas, aos intelectuais, professores e estudantes. Fertilizado pela suspensão do Estado de Direito e a instauração do Estado de Exceção, pela desmoralização completa das instituições, culminando com a do Supremo Tribunal Federal, pela insegurança jurídica generalizada, o campo social está pronto para a caça ao homem, que teve no ex-Presidente Lula sua presa mais emblemática. Se Lula pode ser caçado de modo selvagem, como o foi, qualquer cidadão também poderá sê-lo.

A caça ao homem é a vertente voltada para o indivíduo da lógica que torna o humano matável. A ela corresponde a vertente do extermínio, voltada para o coletivo. Em ambas há um desejo, ou melhor uma pulsão de morte a ser saciada, que foi expressa com precisão no grito mencionado por Nietzsche na Genealogia da moral, posteriormente adotado pelos franquistas, em 1936, durante a Guerra Civil Espanhola: “Evviva la Muerte!”

É esse grito que começamos a ouvir no Brasil, primeiro de modo camuflado, cada vez que Bolsonaro ou os bolsominions se manifestavam. Há décadas o candidato esteve “arando os campos”, como disse em entrevista ao New York Times, em 1993, ao pedir a volta da ditadura – mas o grito não encontrava ressonância maior. É possível afirmar que ele ficou contido e meio abafado até o golpe contra Dilma, em 2016. Thales Ab’Saber, um dos realizadores de Intervenção, filme sobre o desejo de retorno dos militares, observa que, entre 2015 e 2016, só 12,4% da extrema-direita queria a ditadura. Mas na votação do impeachment da Presidenta pelo plenário da Câmara, em 17 de abril desse ano, Bolsonaro homenageou o Coronel torturador-chefe do DOI-Codi, em seu voto, escancarando ali sua estratégia de extermínio do “inimigo”: “Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff.” De lá para cá, foram inúmeras as vezes em que o “Viva a Morte!” foi explicitado, em gestos e palavras, disseminando e intensificando a pulsão de morte em todas as camadas da sociedade brasileira e desrecalcando a barbárie que dormitava, escondida, desde os tempos da escravidão.

O leitor certamente já deve ter percebido que há uma aparente contradição em “Viva a Morte!” porque a expressão invoca ao mesmo tempo as forças da vida e as forças da morte. Mas acontece que as forças da vida só são invocadas para promover a morte, para festejá-la. E não há como não lembrar, aqui, da frase escrita num quadro ao lado de Jair Bolsonaro, numa foto recente. Com efeito, ali se lê: “Eu pacificamente vou te matar.” O que isso quer dizer? Não haveria uma contradição entre o assassinato anunciado e o modo como será perpetrado? Acaso esse crime não é uma violência extrema, a maior de todas, porque atenta contra a vida? Como, então, a matança pode ser pacífica? Na verdade, o candidato só recorre ao modo “pacífico” para acentuar o aspecto sádico de seu intento, de sua ameaça.

A lógica do extermínio não é nova. Há muitos genocídios na História, o mais traumático deles sendo o perpetrado pelos nazistas durante a II Guerra Mundial, contra judeus, comunistas, ciganos, homossexuais, deficientes. Mas tal lógica não morreu na cabeça de governantes, uma vez finda a guerra. Susan George, no livro O Relatório Lugano – Sobre a manutenção do capitalismo no século XXI, examinou como o caráter genocida está implícito na estratégia global do neoliberalismo, quando constatou que o sistema atual é uma máquina universal de destruição do ambiente e de produção de perdedores. Procurando colocar-se na posição daqueles que mais lucram com ela, descobriu que eles estavam inquietos porque, na perspectiva destes, ficava cada vez mais óbvio que o capitalismo é excludente, isto é, que não se pode ao mesmo tempo promover o capitalismo no século XXI e tolerar a reprodução de bilhões de humanos supérfluos para o sistema.

O que S. George compreendeu foi o modo como, para os neoliberais, tornava-se incontornável o problema da redução de população e, com ele, a discussão de estratégias para “resolver” a questão dos excluídos; ou seja, para falar com franqueza, a discussão de um processo de seleção que o poeta Heiner Müller qualificou certa vez como “limpeza social”, a partir das escabrosas experiências de “limpeza étnica”. Mas a “solução” não poderia significar uma reabilitação de sistemas genocidas como o Holocausto, pois como dizem os especialistas do Relatório: “O modelo de Auschwitz é o contrário do que precisamos para atingir o objetivo. (…) A seleção das ‘vítimas’ não deve ser responsabilidade de ninguém, senão das próprias ‘vítimas’. Elas selecionarão a si mesmas a partir de critérios de incompetência, de inaptidão, de pobreza, de ignorância, de preguiça, de criminalidade, e assim por diante; numa palavra, elas encontrar-se-ão no grupo dos perdedores.”

Desentranhando a lógica do extermínio das políticas e das práticas neoliberais contemporâneas, Susan George desvendou a radicalidade do processo em curso e por isso chegou, em seus comentários finais, a uma conclusão cortante: “Ou declaramos guerra à pobreza agora, ou mais dia menos dia vamos nos descobrir em guerra contra os pobres. É essa a escolha.”

S. George escreveu seu livro em 1999. Quatro anos, portanto, antes que o Presidente Lula declarasse guerra à fome e à pobreza no Brasil. Mas o golpe neoliberal de 2016, sob o disfarce da declaração de guerra ao PT, declarou guerra aos pobres. Isso tornou o Brasil um formidável laboratório para a experimentação da estratégia neoliberal. O que estamos assistindo aqui é a guerra aberta das elites contra o povo, cuja explicitação começou dois anos antes, na abertura da Copa do Mundo, quando dos camarotes dos banqueiros patrocinadores do evento partiu o grito: “Dilma, vá tomar no cu”, a fim de desqualificar e degradar mundialmente a representante máxima dos brasileiros. Ali estava o prenúncio do processo de destruição do povo e da nação que agora, nas eleições de 2018, adquire uma perversidade muito mais assustadora. Pois estamos na iminência de um segundo turno no qual as “vítimas”, depois de um processo alucinante de ilegalidades jurídicas e eleitorais, somadas a uma violenta manipulação midiática, vão alegremente eleger o seu carrasco e conferir legitimidade à guerra entre os perdedores.

Vejamos algumas falas de Jair Bolsonaro. É importante conhecê-las não só para saber o que pensa, mas também, e sobretudo, para perceber que, em sua pulsão de morte, o candidato faz questão de dizer tudo escancaradamente, a fim de que não se possa mais tarde afirmar que ninguém sabia.

“O erro da ditadura foi torturar e não matar.” (Em entrevista à rádio Jovem Pan, em junho de 2016).

“Através do voto você não vai mudar nada neste país. Nada. Você só vai mudar, infelizmente, quando nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro. E fazendo um trabalho que o regime militar não fez. Matando uns 30 mil, a começar pelo presidente Fernando Henrique Cardoso.” (Em programa de TV, em maio de 1999).

“(….) no momento em que eu contava esse fato ocorrido em 1969, o deputado Jair Bolsonaro, apontando o dedo pra mim, disse aos gritos que eu não poderia ter sobrevivido à tortura. Que deveriam ter me matado. E acrescentou: “Só matando, para que os comunistas não tenham filhos, pois a ideologia passa pelo sangue.” Depoimento de Aloísio Palmar.

“É o que eu sempre digo, se eu chegar lá, você, cidadão de bem, no primeiro momento vai ter isso em casa (pistola). E você, produtor rural, no que depender de mim, vai ter isso aqui também (erguendo o fuzil)… cartão de visita pra invasor tem que ser cartucho 762.” E finaliza: “Porque mais importante que a tua vida é a sua liberdade (dá ênfase em “tua vida” e pega pistola). Povo armado jamais será escravizado. Parabéns à Taurus.”

Durante ato público em Araçatuba, Bolsonaro perguntou a uma criança se ela sabia atirar. “Você sabe dar tiro? Atira! Policial tem que atirar.”

Matar na favela:

“Vai tratar esses caras com direitos humanos?”

No programa Roda Viva da TV Cultura.

Seria possível continuar com outras declarações do mesmo teor, de Jair Bolsonaro e de seus filhos. Mas creio que já é suficiente. E ainda há muitas declarações criminosas e/ou insultuosas dirigidas aos negros, aos índios, às mulheres, aos nordestinos, aos camponeses, aos militantes da esquerda, aos gays e a todos e todas que não espelham sua individualidade e sua mente patológica.

Jair Bolsonaro se diz cristão e incluiu em seu nome a palavra Messias. Mas, ao contrário de Jesus, que veio para amar, Bolsonaro veio para matar os brasileiros, para destruir, destruir, destruir. Por isso mesmo, num artigo irônico, no blog de Luís Nassif, Rui Daher escreve: “Obrigado por matarem o país.”

Uma última reflexão, para terminar.

Nós não morremos apenas quando os nossos olhos se fecham ou nosso corpo para de funcionar. Há muitas outras maneiras de morrer. Aos poucos, mesmo sem perceber, quando aceitamos que a brutalidade atinja a chama que anima a nossa vida, o nosso espírito.

Há muitos nomes para essa morte que pode nos atingir no dia a dia e fazer de nós mortos-vivos, verdadeiros zumbis que já abandonaram a vida sem saber.

A indiferença ao sofrimento do outro é um dos primeiros nomes da morte, talvez o mais comum, e que parece dizer respeito apenas ao outro, deixando-nos a salvo. Mas quando o sofrimento do outro não nos toca, quem morre um pouco somos nós mesmos; quando nos desviamos do morador de rua envolto em seus trapos, quando ignoramos a mão estendida que pede no farol, quando a bala perdida atinge a criança numa periferia distante – tudo isso pode nos parecer, justamente, “distante”.

O desprezo, que nos faz pensar que somos melhores que os outros, é um dos outros nomes da morte. Dele surge uma outra designação, menos banal, mais mortífera ­– o preconceito: negros são raça inferior, índios são preguiçosos, mulheres valem menos que homens, gays menos ainda que mulheres. Em nome desse preconceito pode-se matar (de verdade), sem mesmo perceber que algo em nós morre ao mesmo tempo.

Outro nome da morte é o ódio, que pode até não alcançar fisicamente o corpo do outro, mas corrói por dentro quem o abriga, come as suas entranhas, aniquila a força da vida.

A morte em todas as suas formas e nomes muitas vezes não se limita à esfera do indivíduo, pode atingir grupos, comunidades inteiras, países. Foi assim na Alemanha nazista. É assim nas favelas “ocupadas” do Rio.

Vivemos no Brasil um desses momentos em que a morte está sendo enunciada e justificada em todas essas suas modalidades, um momento em que a morte torna-se o projeto de vida de um candidato à presidência da República e de seus seguidores. Sua pulsão de morte exige que morram os brasileiros pela indiferença, pelo desprezo, pelo ódio, de fome, de frio, mas também pela ação de balas reais na noite das periferias, nas batidas policiais, nas delegacias, na distante Amazônia cobiçada por mineradoras, madeireiros e pelo agronegócio, nas manifestações pacíficas, nas greves…

Há um número elevadíssimo de mortes violentas no Brasil. Segundo o Atlas da Violência – 2018, o país registrou a marca histórica de 62.517 mortes violentas intencionais em 2016 – o indicador corresponde a 30 vezes a taxa de assassinatos da Europa. Mas há um número muito, muito maior ainda de mortos-vivos, armados ou não, indiferentes ou cheios de ódio. São os chamados “homens e mulheres de bem” que perderam, não se sabe quando, a última parcela de humanidade que lhes restava.

Por isso, leitor, eleitor. Desperte. Não seja um morto-vivo.

Publicado por

Editona n-1

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