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O ser digital e a virada cibernética

Fredric Jameson tem insistentemente afirmado a ocorrência, desde os anos 60, de uma “virada cultural” que expressa o modo como a lógica do capitalismo avançado sobrepõe economia e cultura, fazendo com que tudo se torne cultural, inclusive a produção de mercadorias e a alta finança especulativa, ao mesmo tempo em que a cultura se torna profundamente econômica e mercantilizada1Mas caberia perguntar se a “virada cibernética” configurada na ciência e na tecnologia não seria mais importante, pela radicalidade das transformações que comporta.

1 Fredric Jameson, “”End of Art” or “End of History'”, in “The Cultural Turn”, Londres/Nova York, Verso, 1998, pág. 73.

Impulsionada pela aliança da tecnociência com o capital globalizado, à medida que se espraia e se intensifica desde 70, a virada cibernética vai reformulando o conhecimento e o trabalho em todos os setores da sociedade contemporânea e conferindo um sentido novo à vida, ao mundo, aos processos. E talvez uma boa maneira de estimar seu alcance seja perceber que ela intervém até na ontologia, redefinindo o que é “ser humano” sob o prisma da informação digital e genética.

A extensa divulgação do projeto Genoma Humano, se por um lado alimenta grandes esperanças no progresso da medicina fundado no desvendamento do código genético, por outro sonega ao público o que significa passar a considerar o organismo humano como a expressão do agenciamento de um texto composto no plano molecular, agora passível de leitura e manipulação. Vale dizer: considerar o homem como objeto, como ser absolutamente objetivado para a tecnociência. Fascinado pelas perspectivas terapêuticas de correção do nosso design, o público não vê que a sociedade contemporânea está abrindo as portas para que a genética e a bioinformática enunciem o novo estatuto do humano, sob uma ótica instrumental.

Num interessantíssimo texto anônimo sobre a teoria pós-humana lançado na Internet, pode-se ler:

“O modelo de ação que está pouco a pouco tomando forma parece ser o da recombinação. O material genético que compõe o organismo pode ser considerado como um texto elaborado a partir de elementos combinatórios individuais e manipuláveis. Começando com tal material, logo será possível a ação morfogenética recombinatória. Em vez de mudar o ambiente para adaptá-lo ao organismo -como arrogantemente tentou fazer o homem moderno-, estamos começando a perceber que é necessário reprogramar o organismo para torná-lo compatível com um ambiente no qual a raça humana não pode mais sobreviver. A via que está se abrindo é a da morfogênese recombinatória. (…) Daqui a pouco artistas bioinformáticos vão começar a criar formas de vida a partir de matéria genética elementar. Ouço dizerem: isso é alarmante. Talvez. Alarmante do ponto de vista de um ser humano. Mas (…) quem é o ser humano?”2.

2 “The Post-Human Theory”, in “Tempòs – Uno Sguardo in Divenire”, nº 1, ano 1999. http://www.mediaevo.com/tempos/Welcome.html

Anatomical Figures, 1780 (left) and 1781 (right), Antonio Cattani (Italian, active 1770s–1780s). Engravings, in frame 212.7 x 78.7 cm. The Getty Research Institute, 2014.PR.18 and 2014.PR.19

Em vez de tentar responder a essa pergunta recorrendo ao humanismo moderno, Catherine Waldby (“The Visible Human Project – Informatic Bodies and Posthuman Medicine”, ed. Routledge), atenta à virada cibernética, optou por uma outra via: focalizar o momento em que o primeiro homem e a primeira mulher se tornaram digitais e questionar o sentido dessa operação. O mapeamento do genoma humano ainda estava em curso -portanto o desenvolvimento do projeto Genoma Humano ainda não permitia a completa tradução de um ser humano em suas informações genéticas, a sua transformação em arquivo de dados. Mas o The Visible Human Project (VHP, Projeto do Humano Visível) já havia cumprido a sua missão…

O VHP despertou a atenção quando a National Library of Medicine dos Estados Unidos lançou na rede, em novembro de 1994, o primeiro homem a se tornar um Humano Visível: tratava-se de Joseph Jernigan, um prisioneiro texano de 39 anos condenado à morte e executado no ano anterior, cujo corpo foi escolhido para a primeira digitalização integral por ser são e poder se constituir como padrão. No final de 95 foi lançada a Mulher Visível, versão “cyber” do corpo de uma mulher de 59 anos, desconhecida, doado pelo marido.

NLM Visible Human Project - Section through the head of a human male

Adão e Eva do ciberespaço sugerem a abertura da categoria “humano” para a reprodução técnica

Desde então, o casal virtual tem inspirado milhares de sites e se apresentado, nos mais diversos suportes tecnológicos, em exposições e galerias, interessando não só à comunidade médica, mas também a artistas, militares, projetistas de automóveis, estudantes, produtores de cinema etc.

Aparentemente o VHP limitava-se a ser o último capítulo da história da anatomia, inaugurada pelas dissecações no século 17, pois visava a montar um dispositivo de técnicas computadorizadas de produção de imagem para tornar o corpo humano visível ao olhar clínico e solucionar de uma vez por todas um velho problema médico: a opacidade corporal. Entretanto o que Waldby quer ressaltar é a diferença específica que caracteriza o tratamento dado a este novo “ecorché”, que faz de Jernigan um estranho e paradoxal morto-vivo condenado a habitar eternamente o outro lado das telas dos monitores.

Jernigan e a desconhecida são considerados o Adão e a Eva do ciberespaço, mas sua gênese é bem diversa da versão bíblica. Para transformar seus corpos em dados digitais foi preciso todo um processamento: primeiro, foram totalmente escaneados por ressonância magnética; uma vez “duplicados” numa matriz, foram congelados em gelatina; os blocos petrificados foram seccionados em quatro partes e cada uma delas foi submetida à tomografia e à ressonância magnética; finalmente as partes seccionadas foram sistematicamente fatiadas em lâminas finíssimas e fotografadas digitalmente, cada fotografia convertendo-se então num arquivo visual.

Tal procedimento anulou literalmente a massa dos corpos, uma vez que cada secção plana se dissolvia em serragem após a operação, devido à dissecação extrema. Desse modo, os cadáveres transfiguraram-se numa série de imagens planas acessadas uma a uma para visualização, mas também manipuladas de modo ilimitado -os corpos virtuais podem ser inteiramente desmontados e remontados, animados, programados para interagirem com simulações e até navegados por dentro, por meio de hipermídia, como se fossem um território percorrido por uma pequena nave espacial.

Formas de vida marginais

A transformação dos corpos em imagens virtuais obedece a uma tecnologia cibernética que Waldby examina com extremo rigor, para mostrar como ela passa a calibrar os seres vivos. Num primeiro movimento, trata-se de extrair das formas de vida marginais (o feto, o cadáver, os fragmentos de tecidos de seres socialmente excluídos) um “biovalor”, um excedente de vitalidade e de conhecimento instrumental que vai alimentar as tecnologias destinadas a intensificar a vitalidade de outros seres vivos (no caso do VHP o biovalor específico deriva da instrumentalização do cadáver e de sua transformação em arquivos de um humano utilizado como norma padrão para a medicina computadorizada). Tal extração, porém, pressupõe que se conceba o próprio humano como um sistema de técnicas, uma ordem de dados visuais, e isso só é possível graças a um deslizamento operado pela biotecnologia, que institui um corte entre o sujeito humano e a espécie humana e coloca esta à disposição do primeiro como um recurso a ser explorado.

A atração exercida por Adão e Eva do ciberespaço deriva das equações vida = informação e organismo = código, que tratam as figuras como entidades vitais, corpos mortos ressurretos por meio da capacidade tecnogênica de criar uma segunda natureza informacional

Waldby analisa então como, ao escolher Jernigan, o VHP por um lado reata com as lições de anatomia porque a matéria-prima continua sendo fornecida por extratos malditos da sociedade; mas, por outro, como rompe com ela ao deixar para trás o “Livro do Homem”, o atlas anatômico, e criar o Homem Visível.

Em suma: como na dissecação anatômica, o VHP exige o sacrifício de um corpo como modelo tecnológico que é redimido porque vai servir a outros; mas, se a produção da imagem anatômica pode ser pensada como uma série de práticas de espacialização que transformam sucessivamente o volume do corpo tridimensional em traços iterativos, vale dizer, como uma cartografia que repensa o corpo humano em relação ao corpo do livro, o mesmo não se dá com a produção da imagem virtual. Na passagem do livro à tela, a imagem deixa de ser uma representação para se tornar uma imagem operacional, passível de ser desdobrada como um substituto dos órgãos atuais, em cirurgias e endoscopias virtuais. Waldby mostra que dentro do universo tecnocientífico a atração exercida por Adão e Eva do ciberespaço deriva das equações vida = informação e organismo = código, que tratam as figuras como entidades vitais, corpos mortos ressurretos por meio da capacidade tecnogênica de criar uma segunda natureza informacional.

Ora, o paradoxo é que essa criação de vida se funda num referente incômodo e inapagável -o cadáver, a morte que torna a gênese uma operação macabra e transforma a medicina pós-humana numa medicina gótica. Com efeito, como esquecer que o homem e a mulher visíveis são cadáveres reanimados, fantasmas digitais que retornam ao mundo atual?

Espectro que assombra o humano

“Acima de tudo”, escreve Waldby, “minha intenção é usar o VHP como um espectro que assombra o humano com a fragilidade de seu estatuto de sujeito num mundo de objetos. Lido de um modo, o VHP parece um testamento do domínio humano sobre o mundo natural, domínio demonstrado pela habilidade de sintetizar tecnicamente um corpo homólogo, de substituir a natureza. Lido de outro modo, ele deixa o humano aberto a múltiplas incursões, demonstrando as possibilidades que o corpo tem de ser transformado em mercadoria, de ser instrumentalizado, e demonstrando também seu valor de uso dentro de ordens de racionalidade tecnicamente orientadas. Em vez do humano como a origem da tecnologia, o VHP sugere uma tecnogênese para o humano, a abertura da categoria “humano” para a produção e a reprodução técnicas”.

Publicado in  Folha de São Paulo,Caderno +mais!, especial corpo dilacerado – corpo reconstruído. Domingo, 25 de março de 2001. 
Imagem no início do post: Paolo Mascagni (1755-1815)
Imagem na home: NLM Visible Human Project – detalhe de abdômen
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