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Mobilização popular é rastilho de pólvora contra o golpe – entrevista

“Onde os movimentos foram para a ofensiva, houve recuo de Temer. Onde não houve ofensiva, não acontece nada, continua o jogo da direita avançando”, afirma professor da Unicamp

Por Eduardo Maretti, da RBA.

Três semanas após a votação que afastou a presidenta Dilma Rousseff, dois fenômenos merecem destaque, segundo o sociólogo Laymert Garcia dos Santos, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “O primeiro é que a grande ficha começou a cair, com a reação dos movimentos organizados, mas também de setores que a gente não esperava que tivessem tanta energia, mas tiveram uma reação enorme e muito importante. Do ponto de vista do golpe, constatamos que eles têm que fazer tudo correndo, porque sabem que o relógio corre contra eles, com o crescimento da mobilização popular, diz.

“Onde os movimentos foram para a ofensiva, houve recuo de Temer. Onde não houve ofensiva, não acontece nada, continua o jogo da direita avançando.” Ele menciona como exemplos de ofensivas bem-sucedidas na reação contra o golpe os casos das mulheres (Temer voltou atrás da extinção da secretaria), da habitação (recuo nos cortes no Minha Casa, Minha Vida) e cultura (recriação do ministério).

“Apesar da mídia, a cada dia que passa você tem uma situação de rastilho de pólvora contra o golpe. Isso, do ponto de vista interno”, avalia. “Do ponto de vista externo, depois daqueles episódios grotescos do Congresso (ao votar o impeachment), houve uma reação internacional. Isso foi uma surpresa para os golpistas, que achavam que iam fazer a coisa suave e com uma aparência de legalidade. Mas isso não colou nem interna, nem externamente.”

Em entrevista à RBA em março, portanto antes do golpe, o sociólogo disse que os movimentos sociais e populares só conseguiriam obter resultados se fossem para o ataque. “A resistência não pode ser só uma coisa defensiva, tem que avançar”, afirmou.

O segundo ponto de destaque, com Dilma afastada, “foi a rapidez com que o golpe dentro do golpe se declarou”, diz o sociólogo. “Ou seja, o conflito entre os golpistas e a tentativa de transferir o poder ao PSDB – que não tinha o cacife que tinha o baixo gangsterismo do PMDB para consumar o golpe –, mas que agora quer o poder. Eu chamo de golpe dentro do golpe a tentativa de criminalizar o PMDB, que já era criminoso desde lá atrás, para transferir o poder para o PSDB”, avalia. “Tudo isso está na mídia internacional. O golpe sai do baixo clero bandido e vai para o alto clero bandido, que são os interlocutores dos americanos e da alta finança. Os outros (PMDB) foram massa de manobra nessa história, e agora vão ser queimados.”

A atuação do Judiciário está agora muito mais clara, na opinião de Laymert. “O problema principal para mim, desde meses atrás, era a Procuradoria-Geral de República e o papel do STF. Agora já escancarou que as altas instâncias do Judiciário são golpistas. Neste segundo momento, o que me espanta mais é a velocidade com que isso se explicitou, através dos vazamentos. Mas também isso faz parte da luta pelo poder dentro do golpe.”

MTST e Povo Sem Medo

Segundo o sociólogo, a “vitória” do MTST e Frente Povo sem Medo, em decorrência de sua mobilização, é importante do ponto de vista simbólico e político. A manifestação na frente da casa de Temer, em São Paulo, e depois a ocupação do escritório da Presidência da República, também na capital paulista, são dois exemplos de atos vitoriosos, em sua opinião. “Esses atos tiveram uma carga de densidade enorme e demonstram grande inteligência política.”

O mesmo se aplica às mulheres. “Eu não esperava que a politização das mulheres fosse tão forte a ponto de demonstrarem capacidade de mobilização nacional.” Para Laymert, as associações políticas feitas por elas também demonstraram inteligência política.

“Elas fizeram uma ligação, que tem tudo a ver, entre o estupro do Rio de Janeiro e o estupro, digamos, político que foi o golpe. E, mais, fizeram a ligação entre Gilmar Mendes e (Roger) Abdelmassih (médico acusado de abusar sexualmente de pacientes) e Bolsonaro. Elas fizeram ainda associações que mostram sempre a questão que está por trás do estupro, que é a impunidade.”

As ocupações em escala nacional de prédios do Ministério da Cultura e do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e da Funarte, pelos artistas, também surpreenderam positivamente. “A gente não esperava que isso acontecesse com essa velocidade.”

Entrevista e texto por Eduardo Maretti, publicado em 03/06/2016, na RBA.
Imagem no post e na home (detalhe), de Ricardo Stuckert / Instituto Lula – fotos públicas. Manifestação contra o golpe, Avenida Paulista, São Paulo, 10/06/2016.

 

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Rede Brasil Atual

Este post também está disponível em: Espanhol

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