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No mês em que se comemora a “independência do Brasil”, tendo dias atrás queimado o Museu Nacional, é interessante ler a carta de Laymert Garcia dos Santos dirigida ao então Ministro de Assuntos Estratégicos, Samuel Pinheiro Guimarães, ao ser consultado sobre o plano Brasil 2022, no ano de 2010.

O plano, gestado durante o governo Lula (PT), pensava a inserção geopolítica do país, a busca de uma “autonomia relativa”, e considerava a Cultura como estratégica para tanto. Laymert destaca a potência da diversidade cultural brasileira, em contraste com a “cultura euro-americana declinante”, e a possibilidade do país, articulando as lógicas tradicionais às tecnologias da informação, firmar-se como uma potência global, contribuindo para um outro modo de saber-fazer.

É interessante ler tal carta e lembrar que este era o movimento em 2010, durante o governo Lula, hoje impedido de disputar as eleições, apesar de apontado como favorito em todas as pesquisas. Lembrar o entendimento da cultura como estratégica, do povo como positividade, no momento em que o governo ilegítimo – que teve por um dos primeiros atos extinguir o Ministério da Cultura – deixou queimar o passado, dentro de seu projeto de uma “ponte para o futuro”.

Ao invés da autonomia relativa, a subserviência aos interesses estrangeiros. Ao invés do entendimento da diversidade cultural brasileira como estratégia de desenvolvimento e inserção geopolítica, o sufocamento das instituições culturais e de pesquisa, com o teto de gastos imposto a fim de economizar para o pagamento de juros. Um museu considerado o quinto maior do mundo em acervo, instituição científica mais antiga do país, com diversos cursos de pós-graduação e pesquisas em andamento, teve previsto  para sua manutenção em 2018 quase três vezes menos que o orçamento para lavar os carros utilizados pelos deputados ou a manutenção do Palácio da Alvorada, desocupado desde o Impeachment de Dilma Rousseff.

Rafael Alves

Exmo. Sr.

Samuel Pinheiro Guimarães

Ministro de Assuntos Estratégicos

 

São Paulo, 11 de Junho de 2010.

 

Exmo. Ministro,

            Antes de tudo, quero agradecer a V. Excia. por me incluir entre os consultados para a elaboração do Plano Brasil 2022, o que muito me honra. Espero que minha modesta contribuição possa ser de alguma valia para esse instrumento que reputo da maior importância, do ponto de vista estratégico, sobretudo agora que o Brasil, pela primeira vez em sua história, entra efetivamente no cenário global como uma potência que conta, em termos geopolíticos.

            Li com atenção o documento enviado por V. Excia. e considero bem avaliado, no todo, o papel da Cultura no quadro de uma prospectiva para 2022. Não tenho nenhum reparo a fazer quanto ao que foi enunciado com relação aos diferentes itens do texto – Importância estratégica, Principais Avanços Recentes, e Metas e Ações.

            Entretanto, parece-me que há uma dimensão pouco contemplada e que, a meu ver, precisaria ser explicitada. Trata-se da necessária articulação entre o caráter singular e único da cultura brasileira e as tecnologias da informação. Com efeito, encontramos no texto menções importantes à cultura digital, à digitalização de acervos, a plataformas digitais, à ampliação do acesso à banda larga móvel para 125 milhões de pessoas. Tudo isso, discriminado no item Metas e Ações, pode ser implicitamente entendido como desdobramento da segunda frase do primeiro parágrafo do item Importância Estratégica, que enuncia: “Arte e cultura são essenciais aos sistemas de inovação de uma sociedade e de um país”. Mas é pouco.

            A integração da cultura com a tecnologia é mais do que necessária, é um imperativo, se quisermos construir um futuro. Pois cultura é saber e tecnologia é saber fazer. No caso da cultura brasileira, considerando-se a sua diferença específica, isso implica em dizer que precisamos nos dotar dos instrumentos necessários para que ocorra uma sinergia entre a riqueza da diversidade cultural que “é nossa marca distintiva”, como bem diz o texto, e as potências das tecnologias da informação.

            Até recentemente, estávamos acostumados a pensar que o modelo de desenvolvimento moderno e contemporâneo só poderia ocorrer se imitássemos e incorporássemos o modo da lógica euro-americana relacionar cultura e tecnologia. Mas, com a entrada dos BRICs, sobretudo da China e da Índia, ficou patente que há outros modos, pois chineses e indianos recorrem tanto à lógica ocidental moderna quanto às lógicas tradicionais para fazer valer seu desenvolvimento cultural e tecnológico na dimensão geoestratégica. A pergunta que se impõe, então, é: Seremos capazes de aliar nossa riqueza cultural à produção de tecnologias da informação, de modo a favorecermos um tipo de criação e de invenção que ao mesmo tempo preencha nossas necessidades e aspirações e expresse o nosso modo de ser?

            Não podemos mais considerar a questão apenas do ponto de vista da digitalização do patrimônio cultural existente; tampouco da atualização e adaptação “modernizadora” da cultura brasileira aos padrões culturais e tecnológicos estabelecidos pelo Ocidente como “cultura global”, nos tempos da primeira globalização. Temos que pensar a importância estratégica da cultura brasileira em contraste com a cultura euro-americana declinante, mas também com as lógicas culturais ascendentes. Porque não é mais possível pensar separadamente cultura e tecnologia, saber e saber-fazer. O inventor norte-americano Richard Buckminster-Fuller definiu muito bem os termos da problemática, ao apontar que numa sociedade da informação o que conta é “information gathering” e “problem solving”. Ora, para tanto, é preciso um povo cultivado, isto é habilitado a processar de modo criativo problemas e soluções.

            É sabido que a diversidade cultural brasileira nos torna capazes de encontrar soluções criativas mesmo em extrema adversidade. Um bom exemplo disso é a escola de samba (“escola da vida”), ópera feita por gente do povo, que transforma miséria em luxo, negatividade em afirmação, e que tem como protagonistas centrais o mestre-sala e a porta-estandarte. Neles, vemos um agenciamento extraordinário das três grande matrizes da cultura brasileira, estudadas por Darci Ribeiro. Pois ali se articula uma síntese que harmoniza uma variação do minueto da corte europeia com a vibração do ritmo africano e a sofisticação da plumária indígena. O que faria um povo capaz de tamanha criação se tivesse, além do acesso aos meios, o reconhecimento de seu valor?

Um outro exemplo é a potência embutida na palavra favela. Euclides da Cunha já apontava que ela é uma árvore que dá flores mesmo nas condições climáticas extremas do sertão porque suas raízes tentaculares formam rizomas, redes que ligam uma árvore a outra da mesma espécie, de tal maneira que aquelas capacitadas a captar água dividem-na com as que se encontram em terreno mais hostil. O próprio Euclides indicava que foi esse sentido de cooperação que trouxe o termo favela para a implantação dos retirantes no ambiente urbano do Rio de Janeiro. Minha pergunta é: Em que medida podemos provocar uma sinergia entre a potência da rede de cooperação da favela e a potência das redes digitais, enquanto redes de compartilhamento do saber e do saber-fazer?

            Perdoe-me, V. Excia, por tomar seu precioso tempo com tais preocupações. Mas achei que essa era a melhor contribuição que poderia dar para o Plano Brasil 2022. Aliás, preciso dizer que sinto uma imensa alegria só por saber que ele está sendo gestado – pois isso significa que dentro do Estado brasileiro o bicentenário da Independência está sendo pensado não como uma comemoração de uma efeméride, mas como a realização efetiva da independência do Brasil.

            Colocando-me à disposição de Vossa Excelência para quaisquer informações suplementares, caso necessário,

            Muito cordialmente,

            Laymert Garcia dos Santos

Imagem no post: Selminha Sorriso e o mestre-sala Claudinho na Sapucaí (Foto: Rodrigo Gorosito)
Imagem na home: casal de mestre-sala e porta-bandeira, Diogo Jesus e Lucinha Nobre
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