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O futuro do humano – entrevista

O impacto das novas tecnologias na sociedade ocupa um papel fundamental nas pesquisas desenvolvidas pelo sociólogo Laymert Garcia dos Santos, professor do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (IFCH). A centralidade da tecnociência, as implicações sociais da biotecnologia, a propriedade intelectual, o meio ambiente, e as relações entre cultura e novas ferramentas tecnológicas, entre outros temas, figuram em seu trabalho. Na matéria que segue, Laymert antecipa algumas das idéias que vai expor dia 17 durante o simpósio “Ambiente, Tecnologia e Sociedade”, que integra a programação da 60ª Reunião Anual da SBPC.

Álvaro Kassab

Biotecnologia

Trabalho atualmente em uma pesquisa cujo foco é o futuro do humano. Tenho particular interesse pela incidência da biotecnologia sobre aquilo que se considera a natureza humana. Sempre fico bastante espantado com a espécie de “esquiso” ou de separação que existe na cabeça de muitos especialistas da genética sobre os efeitos que as transformações biotecnológicas podem exercer no entendimento do que é o humano, do que é a psique humana, do que é e pode ser conhecimento humano e do que são e podem ser as relações humanas. Participei de várias mesas com especialistas que dão de barato que essas transformações se encaixam numa espécie de continuidade do nosso modo de existência e do nosso modo de pensar.

A ruptura

Acho que há, nessa questão, uma ruptura importante de ordem epistemológica, mas que, na medida em que pode se transformar numa modificação de células germinativas, pode também se transformar numa modificação ontológica, ou seja, do modo de ser humano. Essa questão precisa ser discutida com a sociedade em todas as frentes.

Efeitos colaterais

Na minha opinião há uma espécie de euforia generalizada com aquilo que seria o chamado progresso da genética, sem uma consideração efetiva dos efeitos colaterais deste progresso na transformação do humano. Será que a sociedade quer e sabe do que se trata? Existe no campo da filosofia uma discussão já bastante intensa sobre isso. Ocorre que esse debate não é repercutido talvez por causa de sua própria complexidade. Não é repercutido e considerado pela mídia da maneira como deveria ser. A mídia é aberta e permeável demais a um único ponto de vista, que é o do progresso da ciência. Não sou contra o progresso, mas estamos numa fase da humanidade em que isso precisa ser discutido do ponto de vista político, e não apenas do ponto de vista científico.

O pós-humano

Muitos autores trabalham hoje na perspectiva do avanço das mutações. Basta levar em consideração o que diz a chamada Escola da Singularidade acerca do modo como as novas tecnologias vão impactar o humano. Estamos entrando naquela que pode ser considerada a era do pós-humano, na qual fato e ficção científica se misturam.

Para onde vamos?

Acho que, no Brasil, a discussão ainda é incipiente, em parte, porque o país não é de ponta em termos tecnocientíficos. O pensamento prioritário é voltado para uma espécie de consolidação da tecnociência. Não podemos discutir a fundo porque, argumenta-se, atrapalharíamos o seu fortalecimento. Além de não ser muito bem-vinda, a crítica é considerada sempre regressiva. Sua origem é sempre atribuída a alguma espécie de fundamentalismo humanista ou religioso, ou seria derivada de uma certa nostalgia. Não é nada disso. Trata-se justamente de considerar que a sociedade deve ter o direito de saber onde estamos e para onde vamos.

Aceleração

Vivemos um processo denominado pelos especialistas de aceleração da aceleração, ou seja, de aceleração exponencial. Essa aceleração da tecnociência entra em compasso com a aceleração econômica, que é propulsada pela globalização. Mas nem sempre as duas acelerações andam juntas. Pode haver conflito e diferenças de ritmo entre elas. Quando surge esse descompasso, passam a existir situações interessantes como, por exemplo, conflitos em torno da questão da apropriação da nova riqueza. Trata-se, evidentemente, da riqueza promovida pela força produtiva-ciência.

O escape

Antigamente, o conhecimento não era apropriado. Era apropriada apenas a aplicação do conhecimento. Hoje a informação é apropriada; o mesmo ocorre com o conhecimento, por meio das diferentes formas de propriedade intelectual. A própria propriedade intelectual, tal como concebida por exemplo no início dos anos 90, já se tornou problemática, em razão de desdobramentos da velocidade da aceleração tecnológica. Vários desenvolvimentos importantes dessa aceleração – e da produção de conhecimento e de informação – começam a escapar.

Fora da moldura

Esse escape ocorre por meio de softwares livres e de uma série de desenvolvimentos que não cabem mais na moldura legal da propriedade intelectual. Com relação, por exemplo, à questão da invenção, no terreno da informação hoje você tem software livre, open source e propriedade intelectual. Somente a existência dessas três diferentes modalidades, com a open soucer tentando se inscrever entre um regime de propriedade duro e a total abertura do código das informações e do conhecimento do software livre, já mostra que o descompasso entre a aceleração tecnológica e a aceleração do capital cria situações interessantíssimas que complexificam o terreno como um todo.

Na periferia

Como fica essa situação na periferia do capitalismo, como é o nosso caso? Trata-se de uma questão importante para ser discutida no Brasil. Ela é interessantíssima não apenas porque temos dificuldade em gerar conhecimento transformável em propriedade intelectual. É relevante também porque precisamos saber em que medida o software livre pode ajudar, ou não, o nosso desenvolvimento. Ou, em última análise, de que maneira dispositivos que escapam do regime de propriedade podem favorecer países como o nosso?

No tabuleiro

Em que medida, nós devemos jogar simultaneamente em dois tabuleiros, como faz a China na questão da propriedade intelectual, ou como fez a Índia na questão dos medicamentos? São questões contemporâneas, mas, ao mesmo tempo, dada a nossa configuração periférica – ou semiperiférica como querem alguns, já que o país é emergente – que precisam ser discutidas a fundo em termos da especificidade da condição brasileira. Não deveríamos pensar a questão da invenção e da inovação nos moldes de uma imitação do que aconteceu no Primeiro Mundo. Estamos vendo essa questão ser processada de um modo peculiar por dois gigantes emergentes – a China e a Índia.

Outros olhares

Acompanho com muito interesse o trabalho que o Ministério da Cultura vem fazendo na relação entre tecnologia e cultura. O ministro Gilberto Gil tem uma posição interessante, por exemplo, na questão do direito autoral. Esse trabalho contempla não apenas a necessidade da reforma do direito autoral, como também o modo como softwares livres e essa produção do conhecimento e da informação, que escapam ao regime da propriedade, podem favorecer setores que estão excluídos do mundo da cultura e da economia.

Novas tecnologias

O país pode ter, com relação às novas tecnologias, um ponto de vista diferente. Sua população é muito mais jovem do que a dos países do Primeiro Mundo. Trata-se, além disso, de uma população moderna, já que é pouco ligada ao passado – é voltada para o presente e para o futuro, muito embora esse futuro, para nós, seja bastante problemático. Esse contingente tem uma abertura para o novo cujo potencial é muito grande. Portanto, a relação que ela tem com as novas tecnologias já pode ser, de saída, bastante positiva, o que não significa que ela deva ser eufórica.

O novo

É preciso considerar o modo de articulação da nossa cultura – que é bastante vital – com as novas tecnologias. Isso pode ser potencializado. Portanto, tecnologia e cultura precisam ser pensadas conjuntamente, assim como economia e ambiente. No nosso caso, tem que ser levada em conta a nossa perspectiva diferenciada com relação aos países de Primeiro Mundo. Se não tivermos uma estratégia, estaremos sempre voltados não para o que a gente tem e para o que a gente pode, mas para o que a gente não tem e para o que a gente quer. Se agirmos assim, estaremos sempre começando pelo lado negativo, e não pelo positivo.

E os índios?

Nesse campo das novas tecnologias, temos uma péssima relação com os povos indígenas, que são não apenas os maiores preservadores como também produtores da floresta tropical. Não caiu ainda a nossa ficha dando conta que o futuro dos povos indígenas também é o futuro da floresta. Eles detêm tecnologias bastante interessantes – desprezadas por nós – para poder conviver com a floresta de um modo sustentável e produtivo. Essas tecnologias passam por um outro tipo de saber e por um questionamento forte do sentido que atribuímos ao desenvolvimento.

Canetti e os mitos

Elias Canetti escreveu que era muito interessante observar que somos capazes de desenvolver tecnologias, mas que todas elas foram pensadas, primeiramente, no mundo do mito. O nosso problema principal, dizia Canetti, é que nós não temos capacidade de inventar mitos. Portanto, nós estamos produzindo tecnologias agora em cima de mitos que foram produzidos antigamente, mas não estamos produzindo as bases de tecnologias futuras em razão dessa incapacidade de inventar mitos.

Vôos xamânicos

Quando você vê um xamã yanomami ou um xamã xavante, sem um jamais ter falado com o outro, dizendo que “nós inventamos um avião mas não o desenvolvemos”, a gente pensa que eles estão com inveja – já que somos capazes de voar e eles não. Mas, se pensarmos na perspectiva do Canetti e do ponto de vista dos mitos, se os homens hoje voam é porque lá trás já estava sendo pensada uma maneira de voar de uma outra forma. No caso brasileiro, temos uma riqueza imensa que está em vias de extinção. Temos mais de 200 povos indígenas, para não falar na contribuição de outros povos tradicionais. É preciso ver que tipo de relação eles têm com o ambiente para pensarmos no desenvolvimento com eles – e não contra eles.

Pós-IPCC

Acho a questão do ambiente muito complicada, já que no Brasil há um pensamento, invariavelmente, muito simplista sobre a relação entre desenvolvimento e ambiente. A questão é colocada em termos de “ou-ou”. Ou desenvolvimento ou consideração de preservação ambiental, sendo que já ingressamos numa época – pós-aquecimento global e pós-IPCC – que não permite mais que a questão seja postergada e colocada nesses termos. Nós – e todos os países, sobretudo os detentores de megadiversidade – temos que levar isso em consideração. O desenvolvimento não pode mais ser considerado como uma prioridade sem quem se pense no fator ambiental, sob pena de o futuro ficar comprometido de forma irreversível.

Com a barriga

A oportunidade de se discutir a questão ambiental junto com tecnologia e energia, nesta edição da SBPC, é muito importante. Mas é preciso que seja levada a fundo uma discussão radical sobre a relação entre desenvolvimento e ambiente. Do contrário, imagino, vai se eternizar essa prática de empurrar com a barriga a questão ambiental. Basta ver o modo como está sendo travada a discussão sobre a Amazônia. E basta constatar como setores majoritários do governo brasileiro consideram a questão do desenvolvimento. A Amazônia é central nesse aspecto. Qualquer discussão passa pelo desenvolvimento da Amazônia com consideração ambiental, sem o que acho sinceramente que não há futuro para o Brasil.

Ouvidos moucos

A questão, portanto, precisa ser enfrentada. Isso não ocorreu até agora, apesar dos diferentes alertas e da massa crítica existente no país para mapear o problema, o que já ocorreu. Acontece que as forças em campo ainda não levaram até às últimas conseqüências a consideração desse mapeamento.

Dinheiro rápido

O que predomina são interesses de curto prazo – para fazer dinheiro rápido. Se for considerado, por exemplo, o plano estratégico do ministro Mangabeira Unger para a Amazônia, o modo absolutamente primitivo com que ele considera a importância da questão do futuro dos povos indígenas, você percebe que, até quando há versões sofisticadas que tentam levar em consideração a relação desenvolvimento-ambiente, ainda assim falta muito para chegar lá. Essa é a questão principal.

E a sociedade?

O eixo temático desta edição da SBPC, energia, tecnologia e ambiente, diz respeito à sociedade. Só podemos pensar nesses três temas em razão do que eles trazem de benefício para a sociedade. No entanto, desde os tempos de Margareth Thatcher, sociedade é um termo que passou a ficar entre parênteses… Até porque Thatcher disse, inaugurando o neoliberalismo numa escala maior, que não existia a sociedade, mas sim indivíduos e mercado. E, no Brasil de hoje, energia, ambiente e tecnologia se referem mais à relação com o mercado do que com a sociedade. Acho isso problemático.

Inovação

Estamos vivendo uma onda na qual a inovação é o que existe de mais importante para o desenvolvimento. Cabe a pergunta: desenvolvimento da sociedade ou do mercado? Ou de ambos? O Brasil tem um problema com a invenção e com a inovação. Durante muito tempo se acreditou que o nosso baixo índice de patentes – em escala global nossa contribuição é de menos de 1% – era decorrente da falta de massa crítica. Depois foi feito um estudo e descobriu-se que o ponto de estrangulamento não é a produção de conhecimento suficiente para a invenção. O gargalo está, em primeiro lugar, no modo como isso não é transformado em patentes, em parte por uma questão jurídica que, na minha opinião, tem a ver com o modo como o Inpi é gerido.

Sem eco

Outro problema que diz respeito à inovação – o principal – é o fato de o setor produtivo não se interessar por ela. Os empresários não investem em pesquisa e desenvolvimento. O conhecimento gerado nas universidades não encontra ressonância no setor produtivo. O problema, portanto, não está na universidade, mas do outro lado. Essa nova lei paulista que transforma a Fapesp numa plataforma para a inovação está tentando ver se consegue estimular o setor produtivo a se interessar por pesquisa e desenvolvimento e, portanto, por inovação – e também, de certo modo, a dissolver esse nó górdio. É o poder público fazendo a parte que, nos outros países, é feita pelo setor privado, com todas as implicações que isso tem.

Zona de sombra

Temos então, aí, uma zona de sombra. No caso brasileiro, o aspecto subdesenvolvido da questão aparece justamente na falta de apetite do setor produtivo em inovar. E, se ele não precisa inovar é porque, de alguma maneira, a questão é resolvida – ou não – de outro modo. Por que não há investimento? Por uma série de razões. A primeira é porque se pode comprar tecnologia pronta. A segunda deve-se ao fato de as grandes corporações concentrarem a sua pesquisa e desenvolvimento nas matrizes. A terceira porque o setor produtivo brasileiro ainda não acordou completamente para a questão da inovação como fator de competitividade – ele não tem ambição necessária para tentar dar o salto. Há, portanto, uma série de fatores. O fato é que a gente tem uma situação que não é facilmente sanável. Talvez devêssemos nos perguntar como é possível ao mesmo tempo pensar que o mercado é tudo, e ficar esperando que o Estado resolva a questão do desenvolvimento da tecnologia…

Energia

A questão da energia é central hoje no Brasil. Por um lado, em razão da relação entre economia e ambiente e, de outro, pelo papel positivo que o biocombustível pode ter caso seja bem manejado. É também uma questão central dadas as descobertas novas em termos de petróleo, que colocam o Brasil num outro patamar, ou seja, o país passa ser uma potência em termos energéticos. Isso muda bastante a posição do país no cenário internacional. Estamos numa espécie de encruzilhada. Temos muitos trunfos na mão, mas é preciso levar em consideração os chamados efeitos colaterais. Como disse, não dá para não considerar a relação entre ambiente e economia.

Entrevista a Álvaro Kassab
Publicado in
Jornal da Unicamp, edição temática 402, 14 de julho a 2 de agosto de 2008.
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